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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

ESPECIAL 100 ANOS - Entrevista exclusiva com Stochelo Rosenberg, do Rosenberg Trio

Stochelo, em boa companhia

Assistir Stochelo Rosenberg tocar é uma lição de humildade para qualquer guitarrista, seja ele amador iniciante ou profissional veterano. Não só é capaz de percorrer incessantemente o braço do instrumento com sequencias de notas e acordes em velocidades vertiginosas como consegue isso sem perder o senso da melodia e da batida da música e, ainda por cima, faz tudo parecer fácil, na maior parte do tempo.

Não é sem motivo que a banda que criou com os primos da tribo Sinti, na Holanda - Nous'che (guitarra base) e Nonnie (contrabaixo) -, tenha se consolidado como uma das principais referências do jazz cigano no mundo. Considerando-se a estreia no disco Seresta (1989), o Rosenberg Trio completou 20 anos de carreira no ano passado, com 15 álbuns nas costas, repletos de participações especiais.

No último dia 11, o trio lançou seu álbum tributo aos 100 anos de Django Reinhardt, Djangologists, ao lado de outro expoente do jazz manouche, Biréli Lagrène - que, na infância, era chamado de "L'Enfant Django". Em entrevista ao DJANGOLOGIA, o guitarrista, de 41 anos, conta mais sobre a produção do álbum, que está sendo comercializado exclusivamente online.

A estratégia é tão ousada quanto necessária para quem não dispõe de apoio das 'majors'. O álbum tem 18 faixas, 5 das quais com a participação de Biréli - na guitarra e no baixo. Quem pagar míseros 8 euros (R$ 20, considerando o euro a R$ 2,60), tem direito ainda um vídeo de 1 hora com o making of do álbum. Também estão disponíveis outras 6 faixas do trio, completamente GRÁTIS.

O álbum está disponível para download no site do Rosenberg Trio e em lojas virtuais de música.


DJANGOLOGIA- Vocês foram descobertos, por assim dizer, por Stéphane Grappelli, em meados dos anos 1990, e tocaram com ele em diversas ocasiões; foram meio "adotados". Como foi para vocês, que ainda eram jovens, ficar lado a lado com um músico tão experiente e eterno parceiro de Django?

STOCHELO - Conhecer Stéphane logo após lançarmos nosso primeiro album foi completamente inacreditável! O momento em que nos procurou e contou que admirava nossa performance e queria fazer uma tour conosco... mais do que um sonho de infância realizado, foi totalmente alucinante para nós. Acho que ficamos fora do chão pelo resto da nossa estada com ele.

Houve uma pressão especial por tocar com Stéphane num momento tão grandioso de sua vida, como o concerto do Carnegie Hall pelo 85º aniversário dele?

Claro! Ficamos tão honrados de tocar com o parceiro de Django, e a confiança que ele depositou em nós era algo que precisávamos retribuir à altura. Ao mesmo tempo, Stéphane nos fez sentir em casa imediatamente, os ensaios com ele eram sempre como reuniões familiares, apenas, divertidas e relaxadas. Apenas tocávamos, como (se estivéssemos) com um irmão ou primo, e foi pura alegria.

O trio começou devido à relação familiar. Vocês já consideraram adicionar um violinista (ou clarinetista, saxofonista) à banda?

Ah, sim, consideramos... e acrescentamos. Nosso album "Roots" (Raízes), de 2007, apresenta o clarinetista convidado Bernard Berkhout, e o "Tribute to Stéphane Grappelli" (Tributo a Stéphane Grappelli é agraciado com a presença do nosso amigo Tim Kliphuis, que é um grande mestre do violino swing e uma pessoa maravilhosa. No concerto, Tim é também um instrumentista soberbo e espontâneo, sempre buscando (contato) com o público.

Capa do álbum Djangologists

A maior parte dos temas do novo tributo, Djangologists, não são clássicos "standards manouches". O que os levou a essa decisão num album tão importante?

Diferentes coisas: queríamos tocar algumas das composições de Django, mas também pensamos que a audiência, apesar de gostar de temas como Nuages e Minor Swing, esperavam que nós cavássemos um pouco mais fundo na obra fantástica de Django, e apresentar alguns temas que são menos conhecidos e menos tocados, mas de todo modo cheios do talento e do espírito dele. Também, para nos atermos a uma "atitude Django", sentimos que precisávamos explorar algumas coisas que ele não necessariamente gravou, mas que poderia, e nos permitir um surpreendente experimento com Biréli no baixo, bastante longe da trilha clássica da guitarra swing.

Vocês estão cansados de tocar Nuages e Minor Swing de novo e de novo, ou ainda acham fácil descobrir novos ângulos e ideias que não haviam pensado em temas como esses?

Ah, esses temas... são tão fantásticos, que mesmo pela zilionésima vez que você os toca, pode haver um "novo ângulo", como você diz. E a audiência QUER ouvir esses temas nos concertos... mas é verdade que às vezes é tentador entrar no "modo automático" com temas tocados tão frequentemente. Então, pode se tornar também uma espécie de desafio. Idealmente, tocá-los com um ou mais convidados é um gatilho natural para renovar a coisa.

Também há dois temas (Double jeu and Swing) seus. Como foi o processo de escolha?

Escolhemos na hora, com Biréli. Ele ficou encantado com Double jeu quando toquei, e fez maravilhas com ela, se aventurando por algum tipo de influências espanholas misturadas com acentuações de valsa cigana. Esse homem faz você tocar melhor! E quanto a Gypsy groovin' (Swing), foi a peça mais funky em que consegui pensar, e foi natural que escolhêssemos essa para ele tocar uma linha de baixo funky. Assistir Biréli tocar baixo no filme Djangologists também é realmente algo (de especial). Nós quase o convencemos a tocar um tema ou dois no violino... quem sabe da próxima vez!

Por que só dois?

Bem, nós tínhamos um monte de temas na nossa lista, e pegamos apenas dois porque sentimos que ficavam naturais com Biréli.

Alguma razão para For Sephora não ter sido incluída?

:) É um tema muito "marca registrada do Rosenberg Trio nos primórdios", talvez?

Stochelo e Biréli

O convidado especial para este álbum é Biréli Lagréne, outro fantástico guitarrista cigano. Quando e onde vocês o conheceram?

Penso que foi em Samois, em 1988 ou 1989. A partir daí, (nos encontramos) muito frequentemente, em festas na casa de Babik Reinhardt, concertos, festivais, etc.

Havia um sentimento de competição saudável no estúdio?

Não há competição com Biréli. :)
Sério, nem uma grama. Nós apenas nos divertimos enormemente, e a presença de Biréli foi um "boost" para o trio em geral, só diversão e execução (musical) soberba, foi o que tivemos. Ele esteve lá no estúdio um dia, apenas, e nós gravamos, cinco temas. Acho que temos uns dez takes alternativos, também. Foi bastante intenso!

Considerando que vocês dois já tocaram juntos em diversas ocasiões, foi fácil definir os arranjos, quem iria tocar que solo?

Sim, voando! O que você precisa explicar para um cara como Biréli? Toque a coisa uma vez, discuta um minuto ou dois, e pode rodar.

Vocês gostaram de gravar o documentário making of?

Não! Foi o inferno na terra! Brincadeira... bom, creio que eles passaram maus bocados tentando capturar tudo sem perturbar, porque fizeram um grande trabalho e nós nem sentimos as câmeras se intrometendo ou qualquer coisa assim. Suave.

O lançamento do filme dependerá quase totalmente da internet. Comercialmente, em termos de mercado, é a melhor opção?

É a única, já que com a crise atual no mercado de gravação, nenhum selo investiria num projeto de jazz como esse com um convidado especial, o filme e as faixas extras, etc. Então, a web nos permite uma distribuição mundial, por uma fração de um álbum normal nas lojas. No nosso site, os 24 temas mais o filme custam 8 euros. Isso significa liberdade, criatividade e independência para nós. Claro que não temos o poder de fogo publicitário de uma 'major', mas um número de fãse seguidores ao redor do globo pode agora apoiar a banda diretamente, e nosso album Djangologists está também disponível em todas as lojas de download digital, como I-Tunes, Napster e Amazon.

A web tem um papel importante em estabelecer esse movimento jazz manouche em nível mundial como vemos hoje?

Sim e não. Se olhar os sites de guitarra e toneladas de vídeos no Youtube, você dirá sim. Se olhar para o que havia antes - indivíduos apaixonados colecionando álbuns, fotos, ou ainda tocando a música de Django em pequenos bares... sem eles, não restaria muito. É uma mistura de ambos, creio.

Django provavelmente foi o primeiro artista cigano a obter verdadeiro reconhecimento no mundo gadjé. Qual foi a maior lição que você extraiu da experiência de vida dele?

MANTENHA-SE VERDADEIRO CONSIGO, e aproveite cada dia!

O trio, em Belgrado

3 comentários:

Natassja disse...

Uauuuuuuuuuu! Nem acredito que você conseguiu essa entrevista maravilhosa para o centenário! Parabéns, ficou um post perfeito para a ocasião e provavelmente inédito por nossos trópicos.
Bjs e os internautas agradecem =D

Badoso disse...

Marcio, gostaria de parabenizá-lo.

Não sou uma pessoa com extenso conhecimento musical, mas posso notar o quão impecável são seus comentários.

A entrevista com Rosenberg está demais.

Fico feliz em ver seu empenho para manter o alto nível do blog djangologia.

Embrassement, Amadeus.

RICARDO MARIANO disse...

Parabens pela entrevista

Eu realizei um grande sonho em vê-los tocar. E foi esse mesmo show tributo ao Django. Estava a 5 metros de distancia deles 3 dias atras num teatro pequeno aqui em Montreal, Canada. Depois do show, comprei o cd e dvd deles e fiquei quase 1 hora no camarim com a familia toda lá e mais alguns musicos juntos. Todo mundo tomando Jack Daniels e rolando altos improvisos. Peguei no violao dele tb. Tirei 2 fotos.
Voltei pra casa e séo consegui dormir 5 horas depois fritando na cama de tanta emoçao. Eles tocaram For Sephora nesse show e quase desmaiei.
abs e tudo de bom
Ricardo Mariano
www.myspace.com/ricardomarianoharmonica