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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Manouches du Brésil

Como foi comentado em outro post, o jazz manouche vem conquistando um número razoável de adeptos, especialmente entre os músicos. Com a colaboração do "leitor-repórter" Felipe Salvego, o DJANGOLOGIA listou 11 BANDAS e 5 ARTISTAS SOLO com influências do gênero em vários estados do Brasil.

Muitos outros podem ter ficado de fora. O levantamento, portanto, será constantemente atualizado. Informações adicionais serão acrescentadas e corrigidas à medida que forem confirmadas. Qualquer banda e/ou artista solo que deseje pode ser incluído no mapeamento. Basta entrar em contato com o Editor.


BANDAS (12)

- BH Gypsy Jazz (Belo Horizonte, MG)

- Cassio Poletto Hot Club (São Paulo, SP)

- Jazz Cigano Quinteto (Curitiba, PR)
www.myspace.com/jazzciganoquinteto

- Hot Club de Piracicaba (SP)
www.myspace.com/hotclubdepiracicaba

- Hot Club do Brasil (Taubaté, SP)
www.myspace.com/hotclubdobrasil

- Hot Club de Vitória (ES)

- Hot Jazz Club (Campinas, SP)

- Le Garagem (Rio de Janeiro, RJ)
www.facebook.com/group.php?gid=103668809010

- Poucas e Boas (Curitiba, PR)
http://mauroalbert.webng.com/poucaseboas.htm

- Santa Maria da Feira
www.myspace.com/santamariadafeira

- Receita da Felicidade
www.myspace.com/receitadefelicidade

- Chez Jacquet


ARTISTAS SOLO (5)

- Edgar de Almeida
www.myspace.com/edgardealmeida

- Leandro Martins

- Paulo Arguelo

- Raphael Saccomani

- Rodrigo Nassif
www.myspace.com/rodrigonassif

domingo, 9 de janeiro de 2011

As inspirações ciganas de Eduardo Mercuri



O que tem de prolífico, o compositor, arranjador, guitarrista, bandolinista e violonista Eduardo Mercuri tem de eclético. Eduardo, de 23 anos, participa de nada menos do que seis projetos musicais, em diferentes vertentes: Mercuri Duo (instrumental de cordas com o irmão, Emílio), Bayaka e Omundô (música étnica), o trio Receita de Samba (choro, Samba e outros ritmos brasileiros) e Eu, Você e Maria (como arranjador, mesclando batida eletrônica e instrumentos de cordas).

Se você só contou cinco projetos no parágrafo acima, é porque ficou reservado para este parágrafo o trabalho que o traz até o DJANGOLOGIA: Eduardo é o líder do Jazz Cigano Quinteto, outro grupo curitibano que busca resgatar a sonoridade do Quintette du Hot Club de France e de Django Reinhardt.

Seu primeiro álbum, O Timbre das mãos, está disponível para download. Entre sambas, choros e outras músicas brasileiras, duas faixas se destacam para os admiradores do jazz manouche: Ciganisses e Tzigane Swing.

O álbum próprio do Jazz Cigano Quinteto, segundo ele, deve ficar pronto em dois meses, e trará mais mistura do estilo aos ritmos brasileiros - já que, nessas duas primeiras faixas, a intenção era fazer apenas uma homenagem.

Eduardo nasceu em Curitiba, e começou a tocar, por influência do pai, também músico, aos 11 anos. É licenciado em Música pela Faculdade de Artes do Paraná (FAP). DJANGOLOGIA conversou com o músico para saber mais sobre o disco e as influências de Django Reinhardt em sua vida.


BATE-PAPO / EDUARDO MERCURI

Como você conheceu o jazz manouche? Foi por meio do próprio Django ou de outro artista?

Conheci pelo youtube, quando estava vendo uns vídeos de um guitarrista sueco chamado Andreas Öberg. Fiquei impressionado com ele tocando a guitarra elétrica, daí, fuçando pelo youtube, achei uns vídeos dele tocando violão manouche. Isso foi bem na época em que comecei a me interessar por jazz. Depois disso, assisti ao filme Poucas e Boas, do Woody Allen, me apaixonei completamente e fui atrás das gravações do Django.


O que mais lhe atraiu no estilo?

Várias coisas, e talvez a grande soma delas.
Primeiro, por ser um estilo de jazz antigo e que marca muito uma época. Não é possível escutar o jazz manouche sem se deixar levar a imaginar a atmosfera em que as pessoas viviam nas décadas de 30 e 40.
Outro ponto marcante é a fácil assimilação do estilo. Por ser antigo, acredito que é muito mais simples de se assimilar do que uma música do [John] Coltrane ou algo mais atual como uma gravação do Kurt Rosenwinkel.
Outro ponto forte é a grande emoção que é passada. Como em todas as vertentes da música cigana, o músico não toca aquilo porque sabe [tocar], apenas. O sentimento é muito presente!
Outro atrativo grande, principalmente para nós, brasileiros, é a proximidade com a linguagem do choro. Fico imaginando um encontro entre o Django e o Jacob do Bandolim, ia ser séria a coisa! Hehehe!
O último atrativo pode ser a virtuosidade dos instrumentistas do estilo, e o fato de ser algo tocado no violão, e não nos instrumentos clássicos do jazz, como trompete, sax, etc.


Como surgiram os temas das faixas que tem base no estilo manouche?

O tema Ciganisses fiz em duas sessões. Eu queria fazer um tema de jazz cigano, e me empenhei nisso. Foi bem no começo da minha interação com o estilo. Compus o tema, mas ele ficou meio desorganizado. Uns 7 meses depois, um amigo me deu dicas sobre quadratura melódica, sobre tamanho (em compassos) de cada parte, A e B, e acabei terminando o tema.
Tzigane Swing saiu em uma tarde, muito rapidamente. Eu tinha passado a tarde tocando com meu amigo Vinícius, que toca comigo no Jazz Cigano Quinteto, então no meio das conversas e toques fiz a frase inicial. De improviso, saíram mais duas frases e eu disse: - Isso pode virar um tema. Acabou que virou mesmo e naquela tarde eu já estava com a partitura escrita!


Como é o seu processo de composição?

O processo de composição é algo muito natural comigo, eu penso que compor é algo como um exercício, quanto mais você pratica mas fácil e mais rápido as idéias surgem. Geralmente elas acontecem quando eu passo um tempo tocando tipo uma tarde inteira, daí quando estou bem aquecido e atento as idéias boas aparecem.
Tem um tema no disco que o processo de composição foi muito louco, pois foi no carro dirigindo, eu tinha saído de um workshop com o guitarrista Michel Leme e tava indo buscar minha mãe com aquelas idéias musicais na cabeça, então fui cantando e dirigindo. Quando cheguei, enquanto esperava ela, gravei no celular a parte B do tema.


Que instrumento usou nas gravações?

Foram usados diversos intrumentos no CD inteiro.
Nas faixas ciganas, usei o meu violão manouche Hofma com boca em D para gravar as bases, e o violão do Vinícius, um Hofma com boca oval para os solos.
Na faixa ”Mentira!” usei um violão de cordas de nylon do luthier João Batista (JB) de um amigo, e o meu bandolim do luthier Marcos Fachel.
Na Faixa “Conselho de Amigo” foi usado o violão JB novamente e o meu Bandolim, a guitarra foi uma Gibson – Es 175 de um grande amigo e guitarrista chamado Oliver Pellet.
Na “Tarde de Abril”, foi o violão JB e a minha Condor acústica modelo do Nelson Faria.
Em “Nebuloso dia” foram usados o violão JB e o bandolim do Marquinhos.
Em “Nublado” foram a Gibson Es – 175 e o Bandolim do Marquinhos.
Em “Amarelo” foram usados o meu Bandolim, uma viola caipira rozini, o violão manouche com boca em D, um violão com cordas de nylon do mesmo luthier do meu bandolim, que eu peguei emprestado e a Gibson do Oliver.
Em “Indo Ao Cinema” usei a minha Condor, e uma Ibanez semi-acústica do Vinícius.
Em “Na Hora do Rush” usei uma Gibson Lucille de um amigo e um violão emprestado do meu Luthier.



FICHA TÉCNICA

FAIXAS

1 - Mentira!
2 - Conselho de Amigo
3 - Tarde de Abril
4 - Nebuloso Dia
5 - Nublado
6 - Ciganisses
7 - Amarelo
8 - Tzigane Swing
9 - Indo ao Cinema
10 - Na Hora do Rush

ARRANJOS E COMPOSIÇÕES: Eduardo Mercuri
INSTRUMENTISTAS:

Eduardo Mercuri – guitarras, violões, bandolins, viola caipira
Lucas Baumer – bateria (2,7,10)
Graciliano Zambonin – bateria (1,3,4,9)
André Nigro – bateria (5)
Junior Dunga – baixo (1,2,4,7,9,10)
Fred Pedrosa – contrabaixo acústico em (6,8)
Hely Souza – contrabaixo acústico (5)
Elton Machado – contrabaixo acústico (3)
Gabriel Castro – sax alto (5,10), sax tenor (9)
Alexy Viegas – piano (5,9,10)
Evandro Cardoso Manchinha – gaita Ponto (1)
John Theo – violino (6,8)
Gusta Proença – triângulo (1)

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Mudança no subtítulo

Aos prezados leitores do blog, notifico uma pequena, mas significativa mudança no título do blog e nos posts subsequentes.

Vinha adotando, até então, a denominação jazz cigano, simples e conveniente tradução do "gypsy jazz" do inglês, "tzigane", "gitan", etc. A partir de agora, passo ao jazz manouche.

Venho percebendo que os envolvidos musicalmente no movimento têm preferido essa última denominação. Talvez por mais exótica, o que, mercadologicamente, é interessante. Também, por ser menos batida do que o termo cigano, que nos remete aqui no Brasil a elementos visuais e musicais completamente diferentes do que se encontra nesse estilo.

Pensando sobre o pastiche de cultura cigana proporcionada geralmente pelos meios de comunicação, concluí que não só a denominação manouche é mais atraente aos ouvidos como também de certa forma demonstra maior respeito à cultura da qual se originou o estilo.

Cigano, gitano, gitane, etc, são as denominações equivocadas dos europeus de quando se pensava que eles, devido à pele escura e traços finos, tinham vindo do Egito. Pesquisas recentes traçam a origem do povo Romani (como eles se chamam) à Índia. Manouche, por outro lado, é uma denominação deles para um de seus principais ramos. É o grupo do qual vêm Django e muitos de seus principais discípulos, até que o estilo começou a se espalhar entre os gadjé.

Até mais,

O Editor

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

POUCAS & BOAS em Londrina - VÍDEOS




Conforme anunciado aqui no DJANGOLOGIA, o quarteto paranaense POUCAS & BOAS se apresentou, neste fim de semana, em Londrina. O líder do grupo, o guitarrista Mauro Albert, colocou no ar no YouTube dois vídeos, que reproduziremos aqui.

Mauro faz a ressalva de que se trata de uma primeira experiência, e ressalta que os quatro integrantes tiveram sete ou oito ensaios juntos, apenas. "É o começo de um trabalho, algo que ainda tem muito a se desenvolver", explica.

Entre os dois temas, já que Night and day é um standard amplamente conhecido, destaco Topsy, que Django gravou uma vez, apenas. Foi na sessão de 4 de outubro para a Blue Star, em 1947. Ao lado do substituto de Stephane Grappelli, o clarinetista Hubert Rostaing, Django reunia um grupo formado por seu irmão Joseph na guitarra rítmica, o fiel contrabaixista Emmanuel Soudieux e o baterista André Jourdan. Merecia ter sido mais explorado, apesar de a versão registrada captar perfeitamente a essência da "malandragem" do tema composto por Edgar Battle e Eddie Durham, tornado famoso pela interpretação do mestre William James Count Basie.

Nas músicas, Mauro Albert mostra desenvoltura nos solos, usando técnicas variadas, inclusive os blocos de acordes (chord solo), que Django tanto gostava. Para dividir as melodias, ele conta com as intervenções e solos inspirados do saxofonista Júlio Erthal. Ambos são sustentados pela cozinha entrosada formada pelo contrabaixista Ricardo Penha e o baterista Eduardo Rorato.


NIGHT AND DAY




TOPSY




ATUALIZAÇÃO (23/12/10):

Mais alguns vídeos foram postados no Youtube pelo pessoal da banda POUCAS & BOAS. Seguem eles:

NUAGES


SEPTEMBER SONG



BELLEVILLE

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Jazz cigano em Londrina - POUCAS & BOAS

Além dos paulistas e fluminenses (veja no post anterior), os paranaenses também terão a oportunidade de ouvir jazz cigano de qualidade ainda em 2010.

Fechando - pelo menos, até o momento - as comemorações do Ano do Centenário do mestre Django Reinhardt, o grupo POUCAS & BOAS fará apresentações, no próximo fim de semana (sábado, 18/12, e domingo, 19/12), em Londrina (PR).

O quarteto é formado pelo guitarrista Mauro Albert, o saxofonista Júlio Erthal, o contrabaixista Ricardo Penha e o baterista Eduardo Rorato. O repertório inclui Douce Ambiance, Manoir de mes rêves e Topsy, além dos principais standards manouche.

O grupo teve início quando Mauro Albert, admirador esporádico das músicas de Django, participou de uma turnê com os músicos Guinha Ramirez e Leandro Fortes, no qual executaram quatro temas do cigano, com Mauro na viola de 10 cordas (!!). Na volta da turnê, segundo o instrumentista, a piração tomou conta e ele mergulhou no estilo. Autor de quatro albuns instrumentais, começou a recrutar os amigos músicos para a empreitada e estava formado o POUCAS & BOAS.

Os shows serão no Teatro Zaqueu de Melo, na Avenida Rio de Janeiro, 431, Centro. No sábado, o POUCAS & BOAS subirá ao palco às 21h; no domingo, às 20h. O ingresso custa R$ 5 (meia entrada). Interessados podem obter mais informações pelo telefone (43) 3301-7133.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Jazz cigano desponta no Brasil

Trata-se de algo muito auspicioso - como se dizia antigamente - que as bandas de jazz cigano (jazz manouche, ou gypsy jazz) estejam proliferando no Brasil. Aos poucos, mas num movimento aparentemente crescente, estão encontrando espaços para se apresentar.

Ainda esta semana, fui surpreendido - com um dia de atraso, infelizmente - pela apresentação do Belleville Quarteto na Lapa (RJ), na noite de quinta-feira (9/12). Ao ver a referência sobre Django Reinhardt, um amigo que conhece o blog veio logo comentar: "Teve show de uma banda que toca o som daquele cara lá que você gosta..."

É, ainda se trata de um "gueto" musical. Mas é muito melhor que o nada absoluto que existia no fim de 1998, quando comecei a pesquisar o assunto. Pouquíssimas pessoas sabiam quem era Django Reinhardt, e a disponibilidade de música era mínima. Houve alguns LPs lançados na décadas de 1970 e 1980, como a série Jazzology, da EMI, que trazia cinco discos com os principais clássicos dos principais mestres do jazz, e Swing it lightly, album duplo com registros da fase eletrificada e bebopizada de Django.

Já conhecia - e recomendo - o Hot Club do Brasil, do camarada Benoit, e o pessoal do Hot Club de Piracicaba, além, claro, do Manuchiados. No começo de novembro, os dois primeiros, junto com a Traditional Jazz Band, promoveram um evento em São Paulo para comemorar o centenário de Django.

Infelizmente, não achei MySpace nem canal do Youtube do Belleville Quarteto. O grupo, de acordo com o site da casa de shows Santo Scenarium, é composto por Sérgio Danilo (clarinete), Samy Erick (guitarra), Pablo Passini (guitarra) e Gustavo Amaral (baixo). Se alguém localizar, emails para a redação do DJANGOLOGIA.

Apesar de achar muito auspiciosa - gostei do termo - essa propagação do estilo e o surgimento de eventos específicos, tenho duas observações, que se aplicam não só aos brasileiros, mas a muitas das bandas seguindo o estilo. Espero que sejam entendidas em um contexto construtivo. Não há intenção de ofender o trabalho de ninguém.

Django era fã de inovação. Queria estar sempre na vanguarda - ainda que isso lhe tenha sido dificultado por uma série de fatores ao longo da vida. Primeiro, as privações provocadas pela origem cigana, que de certa forma acabaram levando a sua escolha pelo musette e pelo java (estilos antigos de Paris) quando estes eram quase proibidos.

Sempre fascinado pelas novidades, aderiu ao hot jazz de Louis Armstrong, que só veio a conhecer cinco ou seis anos depois de seus primeiros sucessos, por sua origem pobre, não tinha dinheiro para importar discos, como faziam os garotos bem-nascidos que fundaram o Hot Club de France em 1932. Depois, as privações e o isolamento provocado pela Segunda Guerra o impediram de participar da revolução do bop. Charlie Christian ficou com o título de gênio máximo da guitarra.

A aposta das bandas atuais no tradicionalismo é grande. A ideia de revival dos anos 30 é muito forte, tanto pela instrumentação quanto pelos temas tocados. Nisso, seguem uma tendência saudosista mundial. A fase de Django lembrada com mais carinho pelos admiradores é sem dúvida a do Quinteto. Esta não reflete, contudo, a totalidade do artista que ele foi, e, em certa medida, tornou-se até uma camisa de força do qual ele teve dificuldade para se livrar.

Mais de uma vez, Django foi quase "obrigado", por questões financeiras, a reunir formações como a do Quinteto. Outras vezes, o fez mesmo para aproveitar a fama da mítica parceria com Grappelli. Mesmo quando já tinha se convencido de que, criativamente, uma formação com outro solista (clarinetista ou saxofonista), piano, baixo e bateria, era mais do que suficiente. Os formatos adotados nos Hot Clubs são, essencialmente acústicos e de quatro, cinco ou mais integrantes.

Quando Django descobriu de fato o poder da eletrificação, em 1946, na viagem aos EUA com Duke Ellington, não voltou mais para a acústica simples. Adorava como a captação elétrica da vibração das cordas permitia maior sustentação das notas (sustain). Para ele, um dos principais propagadores do uso de bends (o ato de "torcer" a nota, mudando sua tonalidade pela manipulação da tensão da corda) e dos glissandos (o "deslizar" de uma nota para outra), era uma oportunidade ímpar de esforçar menos para produzir mais sons.

Instalou um captador Stimer no seu Selmer e passou até a experimentar com as distorções provocadas pelo primitivismo do equipamento. Não viveu, infelizmente, para ver a guitarra elétrica sólida inventada por Leslie Les Paul Polfuss. Se tivesse vivido, não tenho dúvidas de que a teria adotado. Quando descobrisse os pedais de efeitos, então...

Outra questão são os repertórios recheados de clássicos em sua maioria instrumentais, o que dificulta bastante o acesso do público. Por mais que, para os fãs, possa ser maravilhoso escutar novas execuções de Nuages, Minor Swing, Daphné, Sweet Georgia Brown e Saint Louis Blues, para citar algumas, o mundo não é mais o mesmo. O andamento utilizado pelo Quinteto - radical para a época - não é mais "moderno" para o público, hoje conhecedor de havy metal de alto poder de destruição dos tímpanos e de velocidades absurdas e muitas vezes, incômodas.

Em 1946, Django e Grapelli chocaram a França com uma versão jazzística de La Marseillaise. Jimi Hendrix, 23 anos depois, surpreendeu o mundo com uma versão rock n' roll do hino americano Star Spangled Banner. Em 1937, Django e Grapelli viram ser carbonizadas pelos nazistas cópias de sua versão jazz para o Concerto em D menor para dois violinos, de Johann Sebastian Bach. Nos anos 1980, o movimento neoclássico, capitaneado por Ritchie Blackmore, Yngwie Malsmsteen e outros, trouxe para o contexto do heavy metal as músicas clássicas - com ênfase, no caso, no barroco. Críticos torceram os narizes, mas ficou por isso.

Os tempos são outros, e permitem maiores ousadias. Por que não ousar?

domingo, 25 de julho de 2010

A era esquecida de Django

Na turnê nos EUA, em 1946


por Wayne Jefferies


Quando Django Reinhardt e seu quinteto estouraram na cena de jazz no fim de 1934, o impacto no desenvolvimento da guitarra foi colossal. Ele sempre será lembrado por suas realizações na guitarra acústica e muito justamente. Mas é geralmente esquecido que ele gravou em uma variedade de formatos além do famoso quinteto, incluindo vários combos modernos, durante os últimos cinco anos ou tanto de sua vida. Suas gravações deste período foram principalmente na guitarra elétrica ou acústica amplificada, e têm sido muito freqüentemente ignorados. Espero reajustar a balança corretamente.

Muitos falham em reconhecer Django em suas gravações mais tardias; em parte porque elas o associam com a guitarra acústica somente e em parte por causa da diferença na maneira que ele toca. Mas o estilo de Django não mudou simplesmente da noite para o dia quando ele descobriu a guitarra elétrica. Seu estilo se desenvolveu e amadureceu gradualmente. A vasta maioria de suas gravações mostram uma grande imaginação, um senso inato de musicalidade e, talvez especialmente evidente em suas primeiras gravações, uma completa maestria da técnica.

O trabalho de Django nas primeiras gravações do Quinteto é tão incrível que é mais do que um pouco ousado. Posso somente imaginar como deve ter sido para os músicos da época, especialmente guitarristas! Este extrato de “A história da guitarra no jazz”, de Norman Mongan, resume muito bem:

“A versão do Quinteto para Sweet Sue gravada em 1935 tem Reinhardt jogando tudo para cima do ouvinte: double-tops semelhantes aos chineses, harmônicos, relampejantes corridas multi-notadas, a herança Manouche presente nos acordes com tremolo e cordas únicas. Ele joga as oitavas e rápidos glissandi em um estilo ocupado, profuso, indutor. Django tinha tudo”.

Uma das críticas feitas ao trabalho de Django pelos puristas do jazz têm sido os sobretons ciganos em seu estilo. Considerando os antecedentes de Django, é inevitável que algum deste sabor tenha vindo à tona. De fato, isto contribuiu para seu estilo altamente original que era muito novo lá atrás no começo dos anos 30.

É claro que “Django Style” é bastante comum hoje, e “Gypsy Jazz” tem se tornado um estilo aceito por si só, apesar de ser ainda às vezes desprezado por puristas. Por razões diferentes, eu mesmo evito o uso do termo Django Style porque ele implica que a era do Hot Club e o início-e-o-fim da música de Django. Tendo dito isto, é fácil ver porque isto teve um tremendo impacto.

No entanto, o elemento cigano no estilo de Django desapareceu gradualmente e tão cedo quanto 1939, seu estilo estava começando a se mover adiante. Ouvindo a tais gravações como Sweet Georgia Brown, Honeysuckle Rose, Twelfth Year e sua imortal interpretação de I’ll see you in my dreams, e comparando-as com alguns de seus trabalho mais antigos, ele tinha, de uma certa forma, eliminado algumas coisas de seu sistema nesta época. Seu estilo ainda retém sua exuberância única, e sua formidável técnica é ainda óbvia, mas há um sentimento levemente mais balanceado.

Durante os anos 30, Django estava na linha de frente do desenvolvimento da guitarra no jazz. Seus discos haviam começado a chegar à América, e muitos grandes músicos americanos viajavam para a França para gravar com ele, espalhando a notícia deste incrível músico em seu retorno aos Estados Unidos. Quem sabe que efeito ele poderia ter causado no Be-Bop na América durante os anos 40, se tivesse condições de chegar lá, mas justamente quando ele estava no seu auge, sua carreira foi radicalmente afetada pela deflagração da guerra. Cortado do caldeirão efervescente do Be-Bop por seis anos, ele não esteve a par dos desenvolvimentos do jazz moderno até que estes já estivessem bem avançados. Nesta ocasião, o principal inovador da guitarra do movimento – Charlie Christian – tinha morrido de tuberculose há quatro anos!

No entanto, durante os anos da guerra, a música de Django continuou a se desenvolver. Durante este período, Django produziu algumas gravações memoráveis incluindo muitas de suas composições próprias, como Manoir de mes rêves, Douce ambiance e a clássica Nuages. Uma sessão de gravação particularmente boa veio logo após a guerra, em Londres, janeiro de 1946, na qual oito grandes cortes foram feitos. Reunido com Grapelli e apoiado por uma seção rítmica inglesa, ele produziu alguns de seus melhores trabalhos na guitarra acústica. Ele parece estar transbordando de idéias, ainda faiscando com graça e trovejando de energia, mas soando muito sólido e maduro. Seu controle da dinâmica é magistral nesta sessão, construindo a tensão e a liberando maravilhosamente em Nuages, passando sem esforço em Liza, e novamente em um rompante imaginativo através de Belleville. Ele até sopra vida na banal Coquette, fazendo-a soar como o mais maravilhoso tema! A original de Melodie au crépuscule está aqui. Este belo tema é uma obra de arte, e o solo de Django é belíssima.

Ao fim da guerra, gravações dos EUA começaram a filtrar através da Europa e, em 1946, Django finalmente foi para a América ouvir os desenvolvimentos do “novo” jazz em primeira mão. Foi aqui que Django tocou uma guitarra elétrica pela primeira vez. Ouvindo às poucas faixas gravadas com Duke Ellington, soa como se Django tivesse também conseguido se apossar de um bom amplificador no dia. Ele tem um tom singularmente grande, mas muito pouco da distorção que é característica de suas primeiras tentativas de gravar com uma guitarra elétrica. Muitas destas gravações apareceram durante 1947, o resultado de uma amplificação pobre e a técnica agressiva de Django. Ironicamente, este som se tornou aceito nos círculos de admiradores de Django, e alguns músicos se desviam de seu caminho especificamente para imitá-lo.



Entre 1946 e 1949, as gravações de Django se alternaram entre a guitarra elétrica e a acústica, mas seu estilo musical continuou a se desenvolver. Muitas de suas composições desta época – como Diminishing blackness e Micro – refletem a crescente influência do Be-Bop. De fato, a oitava média de Moppin’ the bride poderia ter sido escrita pelo próprio Charlie Parker!

Por 1949, a influência do Be-Bop em no estilo de Django é óbvia. Ouça qualquer uma das famosas “Sessões de Roma” ou a gravação de 1950 com André Ekyan – Reinhardt faz tanto Grapelli quanto o saxofonista André Ekyan parecerem datados. Nesta época, Django estava indo exclusivamente para um som elétrico. Ironicamente, foi durante este período que ele acoplou uma pickup barra elétrica a sua Macaferri, e foi capaz de produzir um tipo de som limpo mais archtop. De fato, ele uma vez se referiu às guitarras elétricas na América como “panelas de latão”. Mas ele queria o som elétrico/archtop e obviamente saiu de seu caminho para consegui-lo.

Para mim, o melhor material do período moderno de Django foi entre 1951 e sua morte em 1953. Cedo em 1951, armado com sua Macaferri amplificada – que ele usou até o fim – ele juntou uma nova banda dos melhores jovens músicos de Paris; incluindo Hubert Fol, um altoísta nos moldes de Charlie Parker. Apesar de Django ser vinte anos mais velho do que o resto da banda, ele estava completamente no comando do estilo moderno. Conquanto seus solos se tornassem menos cordais e suas linhas mais semelhantes a Christian, ele reteve sua originalidade. Sua técnica infalível, suas improvisações ousadas, “no limite” combinadas com seu vastamente avançado senso harmônico o levaram a alturas musicais que Christian e muitos outros músicos de Bop nunca chegaram perto. Os cortes ao vivo no Club St. Germain, em fevereiro de 1951 são uma revelação. Django está no auge da forma; cheio de novas idéias que são executadas com incrível fluidez, linhas angulares cortantes que sempre retém aquele feroz balanço. Mais novas composições apareceram, como Double whiskey e a brilhante Impromptu da qual uma versão desconcertante foi gravada em maio de 1951. Este é um tema tremendamente excitante que eu nunca ouvi ninguém tentar tocar. Ele apresenta grandes solos da banda toda e Django deixa bem claro em sua composição de acordes que ela é baseada na seqüência de Things to come de Dizzy Gillespie, fazendo-o parecer fabulosamente como a big band de Gillespie! Gillespie também usou esta seqüência de acordes mais tarde para Be-Bop.

Infelizmente, Django não gravou muito em 1952*, mas ele cortou quatro grandes temas em janeiro. O apropriadamente intitulado Keep cool de Hubert Fol e três temas de Django – um arranjo moderno para sua composição de 1949 Troubant bolero, a memorável Nuit de St. Germain de Près – um tema estalado de bop, popular nos círculos de admiradores de Django, mas de outra forma tristemente não escutado e finalmente outro tema subestimado que é raramente tocado mesmo nos círculos de admiradores de Django: Fleche D’Or. Há um traço de ornitologia na melodia e um solo impressionantemente moderno de Django. O tema termina com um dramático coda de guitarra solo. Um de meus grandes favoritos, mas dificilmente alguém mais sequer ouviu falar!

Django morreu na noite de 15 de maio de 1953**, mas no ano final de sua vida ele produziu música de verdadeira qualidade. Uma favorita pessoal é Anouman da sessão de 30 de janeiro. Depois de uma introdução reflexiva de piano por Maurice Vander, a melodia agridoce é tocada com grande poise por Hubert Fol no alto. Reinhardt assume a oitava média, terminando seu solo em um arpégio de tríade aumentada soando fantasmagórica. Uma peça de música assombrosamente bela.

A sessão de 10 de março produziu oito clássicos absolutos, incluindo discutivelmente sua melhor versão de Nuages. Apesar de alguns bons balanços em Night and day e Brazil, toda a atmosfera desta sessão é de alguma forma permeada com grande melancolia. Evidente em todas as faixas está uma estranha mistura de tristeza, beleza e profundidade. Manoir de mes rêves tem um ar de quieta aceitação. É bastante pacífica, mas ao mesmo tempo há uma qualidade quase insuportavelmente desoladora nela. Como Norman Monyan observou, “é quase como se ele soubesse que o fim estava chegando”.

A sessão final de gravação de Django teve lugar em 8 de abril de 1953, e produziu as quatro gemas finais. Ela abre com a contemplativa Le soir, mas Chez moi aumenta o tempo com um sentimento alegre e I cover the waterfront novamente demonstra sua maestria da balada moderna. A declaração final de Django legada à cera foi Deccaphonie***, uma improvisação em doze compassos, acima do andamento, moderna até para os padrões de hoje. Um epitáfio adequado, talvez.

Talvez com um pouco mais de tempo Django teria sido aceito como um guitarrista moderno. Como era, muitos de seus fãs lhe perguntavam, “por que você não toca como costumava fazer com Grapelli?”. Quão entristecedor deve ter sido para este grande homem, de uma maneira snared pelo seu gênio passado, que só queria se expressar através da música que ele amava e sentia. A influência de Django na América poderia ter sido bem maior com outra tentativa pela América. Mas não era para ser. No entanto, seu lugar na história do jazz está assegurado, e para muitos ele irá continuar a ser o maior guitarrista que já viveu.


Tradução Marcio Beck



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NOTAS DO EDITOR :

* Em 1952, Django gravou oito temas.

** Ele morreu por volta das 16 horas do dia 16 de maio de 1953, não na noite do dia 15.

*** Na última sessão de gravação, foram registradas duas versões de Deccaphonie. Foi a única da sessão em duplicata.