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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Prova de amizade

Um papel timbrado do Hotel Henry Hudson, de Nova York, cheio de garranchos em francês, é possivelmente a maior prova da amizade de Django Reinhardt e seu eterno parceiro musical, Stéphane Grappelli.

Em plena excursão pelos Estados Unidos como convidado da orquestra de Edward Duke Ellington, consagração de sua carreira, Django decidiu compartilhar as novidades com Stéphane. No dia 5 de dezembro, pegou uma folha com a caravela estilizada que servia o selo do hotel - localizado na Avenida 57, número 353 - e escreveu uma pequena carta, de menos de 300 palavras.

No documentário A century in the jazz life, Stéphane foi categórico sobre a relação dos dois: "Se eu tive um amigo na vida, foi ele". No filme, Grappelli também conta como Django quase atrapalhou a assinatura do primeiro contrato do Quintette para uma excursão pela Inglaterra, em 1938, ao implicar com uma cláusula do contrato que previa o pagamento da hospedagem pelos contratantes.

Até então, Django aprendera apenas a garatujar o próprio nome, mas não gostava da ideia de ser deixado de lado das negociações por escrito. Stéphane sentiu que o amigo precisava de mais do que isso para não se meter em confusão e lhe ensinou o básico do idioma.

O líder do HOT CLUB DO BRASIL, Benoit Decharneux, também nascido na Bélgica, ficou comovido com o provável esforço do guitarrista para redigir a mensagem, reproduzida no livro Django Reinhardt - Rhythme futurs, de Alain Antonietto e François Billard. Decidiu então traduzi-la e enviá-la aos companheiros da banda.

"Esta carta mostra o carinho que o Django tinha pelo seu parceiro e amigo Stéphane Grappeli. O texto tem erros grosseiros, mas é possível compreender o sentido das palavras. Demonstra que Django não era totalmente analfabeto. Ele escrevia como uma criança que ainda não teve aulas de ortografia e gramática", analisou Benoit, a pedido do DJANGOLOGIA.

Solicitei ainda que ele especificasse um pouco estes erros de francês. Em vez de "c'est" (é), Django escrevia "sais" (sei); em vez de "mots" (palavras), "maux" (males). Praticamente não há vírgulas ou pontos e ele repetia muito a palavra "alors" (então), um aparente vício de linguagem. Outros equívocos, como as grafias dos nomes das cidades da excursão e a inclusão do Canadá na lista, são óbvios mesmo para quem não domina o idioma.

Abaixo, seguem os textos traduzido e original da carta. Foram mantidos o estilo original e as grafias usadas por Django.


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A CARTA A GRAPPELLI

5 dez 1946

Meu caro Stéphane, eu te escrevo duas palavras, para te dizer que os negócios vão magnificamente bem aqui. Você me desculpe por não ter escrito mais cedo mas estando em turnê eu não tinha tempo. Em New York, todo mundo está esperando por você e perguntam quando você vem então eu respondo que muito em breve. Todo mundo está encantado e logo que cheguei eu me informei sobre trazer o Quinteto, mas disseram que é impossível então parei de falar sobre você. Eles são muito duros mas tudo vai dar certo, talvez demore um pouco mas você virá aos EUA meu caro Stéphane. Eu não tenho mais grandes novidades para te contar então vou te descrever a turnê. É formidável, nós temos um 'pullman' para a orquestra, todos os músicos estão deitados. Duke e eu temos um pequeno living room com duas camas. Duke é um grande músico, frequentemente depois dos concertos Duke escreve música no living room então é maravilhoso, formidável. Duke acaba de escrever uma grande ópera. É uma loucura. Eu vou te dizer algumas cidades. Bufalo, Claivelan Kasas Citi Cinsinati Chicago Detroit Philadelphia Pétersburg Norkfolk Rochester Toronto Canadá Toledo Omaa Ohio San Francisco Lincoln. Enfim eu percorri bastante, e isso é apenas a metade, não me lembro das outras cidades, então você tem noção do trabalho. Meu caro Stéphane você me desculpe pelos erros de ortografia mas eu espero que você consiga compreender. Conte bem as coisas a Georgette, você sabe, a pequena do jornal Musical Express.

Até breve

D Reinhardt



TEXTO ORIGINAL

Mont'cher Stéphane, je técris sais deux maux, pour te dire que les a faires vons magnifiquement bien. Isí, tu méscusera si je té pas ecrit plus vite étante en tournés je navai vraiment pas le tent. Lésons sais chose la de cotès. A New York tu è trés adendu tous le monde meuq demandes can viendratu alors moi je leur repons que tu viendra biento. A lors tous lemonde è ravis. Mais quélque jour aprés mon a rivèr. Je me suis informés pour le Quintétte. A lu nion il mon di que sais inposible. A lor je me suis di sais pas la péne de trot leus parlés de toit. Il son très dur mais tou ca renjera quanméme. Ca durera petétre lontent mais tu viendra aux USA mon chèr Stéphane je. Ne vois plus grand chose a te dir mintenant je vais te décrire a la vites e la tournes. Sais formidable nous avons un pulmmane pour l orchèste. Tous les musicies sons couchèt et Duke et moi nous avons un petit livig room a deux lits. Duke sais le plus grand musicien. Souven a prés le concèr Duke écri la musique dans le petit livig room. Alor sais mèrvèlles sais vraiment formidable Duke vien déscritre un grand opéra. Sais sous enfin je vais te dirles quelque villes. Bufalo, Claivelan Kasas Citi Cinsinati Chicago Boston Detroit Philadélphia Pétersburg Norkfolk Rochester Toronto Canada Toledo Omaa Ohio San Francisco Lingcol enfin jais parcouru pa mal èt ce né que lá moitis je meux rapéle plus des villes. A lor que tu te renconte du travalle. Mon chèr Stéphane tu mescusera encore une foit de plus pour locotograf mais jéspére que tu conpradrai. Di bien des chose Georgette tu sais la petit du journales Musical Express

A biento

D. Reinhardt

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Manouches du Brésil

Como foi comentado em outro post, o jazz manouche vem conquistando um número razoável de adeptos, especialmente entre os músicos. Com a colaboração do "leitor-repórter" Felipe Salvego, o DJANGOLOGIA listou 11 BANDAS e 5 ARTISTAS SOLO com influências do gênero em vários estados do Brasil.

Muitos outros podem ter ficado de fora. O levantamento, portanto, será constantemente atualizado. Informações adicionais serão acrescentadas e corrigidas à medida que forem confirmadas. Qualquer banda e/ou artista solo que deseje pode ser incluído no mapeamento. Basta entrar em contato com o Editor.


BANDAS (12)

- BH Gypsy Jazz (Belo Horizonte, MG)

- Cassio Poletto Hot Club (São Paulo, SP)

- Jazz Cigano Quinteto (Curitiba, PR)
www.myspace.com/jazzciganoquinteto

- Hot Club de Piracicaba (SP)
www.myspace.com/hotclubdepiracicaba

- Hot Club do Brasil (Taubaté, SP)
www.myspace.com/hotclubdobrasil

- Hot Club de Vitória (ES)

- Hot Jazz Club (Campinas, SP)

- Le Garagem (Rio de Janeiro, RJ)
www.facebook.com/group.php?gid=103668809010

- Poucas e Boas (Curitiba, PR)
http://mauroalbert.webng.com/poucaseboas.htm

- Santa Maria da Feira
www.myspace.com/santamariadafeira

- Receita da Felicidade
www.myspace.com/receitadefelicidade

- Chez Jacquet


ARTISTAS SOLO (5)

- Edgar de Almeida
www.myspace.com/edgardealmeida

- Leandro Martins

- Paulo Arguelo

- Raphael Saccomani

- Rodrigo Nassif
www.myspace.com/rodrigonassif

domingo, 9 de janeiro de 2011

As inspirações ciganas de Eduardo Mercuri



O que tem de prolífico, o compositor, arranjador, guitarrista, bandolinista e violonista Eduardo Mercuri tem de eclético. Eduardo, de 23 anos, participa de nada menos do que seis projetos musicais, em diferentes vertentes: Mercuri Duo (instrumental de cordas com o irmão, Emílio), Bayaka e Omundô (música étnica), o trio Receita de Samba (choro, Samba e outros ritmos brasileiros) e Eu, Você e Maria (como arranjador, mesclando batida eletrônica e instrumentos de cordas).

Se você só contou cinco projetos no parágrafo acima, é porque ficou reservado para este parágrafo o trabalho que o traz até o DJANGOLOGIA: Eduardo é o líder do Jazz Cigano Quinteto, outro grupo curitibano que busca resgatar a sonoridade do Quintette du Hot Club de France e de Django Reinhardt.

Seu primeiro álbum, O Timbre das mãos, está disponível para download. Entre sambas, choros e outras músicas brasileiras, duas faixas se destacam para os admiradores do jazz manouche: Ciganisses e Tzigane Swing.

O álbum próprio do Jazz Cigano Quinteto, segundo ele, deve ficar pronto em dois meses, e trará mais mistura do estilo aos ritmos brasileiros - já que, nessas duas primeiras faixas, a intenção era fazer apenas uma homenagem.

Eduardo nasceu em Curitiba, e começou a tocar, por influência do pai, também músico, aos 11 anos. É licenciado em Música pela Faculdade de Artes do Paraná (FAP). DJANGOLOGIA conversou com o músico para saber mais sobre o disco e as influências de Django Reinhardt em sua vida.


BATE-PAPO / EDUARDO MERCURI

Como você conheceu o jazz manouche? Foi por meio do próprio Django ou de outro artista?

Conheci pelo youtube, quando estava vendo uns vídeos de um guitarrista sueco chamado Andreas Öberg. Fiquei impressionado com ele tocando a guitarra elétrica, daí, fuçando pelo youtube, achei uns vídeos dele tocando violão manouche. Isso foi bem na época em que comecei a me interessar por jazz. Depois disso, assisti ao filme Poucas e Boas, do Woody Allen, me apaixonei completamente e fui atrás das gravações do Django.


O que mais lhe atraiu no estilo?

Várias coisas, e talvez a grande soma delas.
Primeiro, por ser um estilo de jazz antigo e que marca muito uma época. Não é possível escutar o jazz manouche sem se deixar levar a imaginar a atmosfera em que as pessoas viviam nas décadas de 30 e 40.
Outro ponto marcante é a fácil assimilação do estilo. Por ser antigo, acredito que é muito mais simples de se assimilar do que uma música do [John] Coltrane ou algo mais atual como uma gravação do Kurt Rosenwinkel.
Outro ponto forte é a grande emoção que é passada. Como em todas as vertentes da música cigana, o músico não toca aquilo porque sabe [tocar], apenas. O sentimento é muito presente!
Outro atrativo grande, principalmente para nós, brasileiros, é a proximidade com a linguagem do choro. Fico imaginando um encontro entre o Django e o Jacob do Bandolim, ia ser séria a coisa! Hehehe!
O último atrativo pode ser a virtuosidade dos instrumentistas do estilo, e o fato de ser algo tocado no violão, e não nos instrumentos clássicos do jazz, como trompete, sax, etc.


Como surgiram os temas das faixas que tem base no estilo manouche?

O tema Ciganisses fiz em duas sessões. Eu queria fazer um tema de jazz cigano, e me empenhei nisso. Foi bem no começo da minha interação com o estilo. Compus o tema, mas ele ficou meio desorganizado. Uns 7 meses depois, um amigo me deu dicas sobre quadratura melódica, sobre tamanho (em compassos) de cada parte, A e B, e acabei terminando o tema.
Tzigane Swing saiu em uma tarde, muito rapidamente. Eu tinha passado a tarde tocando com meu amigo Vinícius, que toca comigo no Jazz Cigano Quinteto, então no meio das conversas e toques fiz a frase inicial. De improviso, saíram mais duas frases e eu disse: - Isso pode virar um tema. Acabou que virou mesmo e naquela tarde eu já estava com a partitura escrita!


Como é o seu processo de composição?

O processo de composição é algo muito natural comigo, eu penso que compor é algo como um exercício, quanto mais você pratica mas fácil e mais rápido as idéias surgem. Geralmente elas acontecem quando eu passo um tempo tocando tipo uma tarde inteira, daí quando estou bem aquecido e atento as idéias boas aparecem.
Tem um tema no disco que o processo de composição foi muito louco, pois foi no carro dirigindo, eu tinha saído de um workshop com o guitarrista Michel Leme e tava indo buscar minha mãe com aquelas idéias musicais na cabeça, então fui cantando e dirigindo. Quando cheguei, enquanto esperava ela, gravei no celular a parte B do tema.


Que instrumento usou nas gravações?

Foram usados diversos intrumentos no CD inteiro.
Nas faixas ciganas, usei o meu violão manouche Hofma com boca em D para gravar as bases, e o violão do Vinícius, um Hofma com boca oval para os solos.
Na faixa ”Mentira!” usei um violão de cordas de nylon do luthier João Batista (JB) de um amigo, e o meu bandolim do luthier Marcos Fachel.
Na Faixa “Conselho de Amigo” foi usado o violão JB novamente e o meu Bandolim, a guitarra foi uma Gibson – Es 175 de um grande amigo e guitarrista chamado Oliver Pellet.
Na “Tarde de Abril”, foi o violão JB e a minha Condor acústica modelo do Nelson Faria.
Em “Nebuloso dia” foram usados o violão JB e o bandolim do Marquinhos.
Em “Nublado” foram a Gibson Es – 175 e o Bandolim do Marquinhos.
Em “Amarelo” foram usados o meu Bandolim, uma viola caipira rozini, o violão manouche com boca em D, um violão com cordas de nylon do mesmo luthier do meu bandolim, que eu peguei emprestado e a Gibson do Oliver.
Em “Indo Ao Cinema” usei a minha Condor, e uma Ibanez semi-acústica do Vinícius.
Em “Na Hora do Rush” usei uma Gibson Lucille de um amigo e um violão emprestado do meu Luthier.



FICHA TÉCNICA

FAIXAS

1 - Mentira!
2 - Conselho de Amigo
3 - Tarde de Abril
4 - Nebuloso Dia
5 - Nublado
6 - Ciganisses
7 - Amarelo
8 - Tzigane Swing
9 - Indo ao Cinema
10 - Na Hora do Rush

ARRANJOS E COMPOSIÇÕES: Eduardo Mercuri
INSTRUMENTISTAS:

Eduardo Mercuri – guitarras, violões, bandolins, viola caipira
Lucas Baumer – bateria (2,7,10)
Graciliano Zambonin – bateria (1,3,4,9)
André Nigro – bateria (5)
Junior Dunga – baixo (1,2,4,7,9,10)
Fred Pedrosa – contrabaixo acústico em (6,8)
Hely Souza – contrabaixo acústico (5)
Elton Machado – contrabaixo acústico (3)
Gabriel Castro – sax alto (5,10), sax tenor (9)
Alexy Viegas – piano (5,9,10)
Evandro Cardoso Manchinha – gaita Ponto (1)
John Theo – violino (6,8)
Gusta Proença – triângulo (1)

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Mudança no subtítulo

Aos prezados leitores do blog, notifico uma pequena, mas significativa mudança no título do blog e nos posts subsequentes.

Vinha adotando, até então, a denominação jazz cigano, simples e conveniente tradução do "gypsy jazz" do inglês, "tzigane", "gitan", etc. A partir de agora, passo ao jazz manouche.

Venho percebendo que os envolvidos musicalmente no movimento têm preferido essa última denominação. Talvez por mais exótica, o que, mercadologicamente, é interessante. Também, por ser menos batida do que o termo cigano, que nos remete aqui no Brasil a elementos visuais e musicais completamente diferentes do que se encontra nesse estilo.

Pensando sobre o pastiche de cultura cigana proporcionada geralmente pelos meios de comunicação, concluí que não só a denominação manouche é mais atraente aos ouvidos como também de certa forma demonstra maior respeito à cultura da qual se originou o estilo.

Cigano, gitano, gitane, etc, são as denominações equivocadas dos europeus de quando se pensava que eles, devido à pele escura e traços finos, tinham vindo do Egito. Pesquisas recentes traçam a origem do povo Romani (como eles se chamam) à Índia. Manouche, por outro lado, é uma denominação deles para um de seus principais ramos. É o grupo do qual vêm Django e muitos de seus principais discípulos, até que o estilo começou a se espalhar entre os gadjé.

Até mais,

O Editor

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

POUCAS & BOAS em Londrina - VÍDEOS




Conforme anunciado aqui no DJANGOLOGIA, o quarteto paranaense POUCAS & BOAS se apresentou, neste fim de semana, em Londrina. O líder do grupo, o guitarrista Mauro Albert, colocou no ar no YouTube dois vídeos, que reproduziremos aqui.

Mauro faz a ressalva de que se trata de uma primeira experiência, e ressalta que os quatro integrantes tiveram sete ou oito ensaios juntos, apenas. "É o começo de um trabalho, algo que ainda tem muito a se desenvolver", explica.

Entre os dois temas, já que Night and day é um standard amplamente conhecido, destaco Topsy, que Django gravou uma vez, apenas. Foi na sessão de 4 de outubro para a Blue Star, em 1947. Ao lado do substituto de Stephane Grappelli, o clarinetista Hubert Rostaing, Django reunia um grupo formado por seu irmão Joseph na guitarra rítmica, o fiel contrabaixista Emmanuel Soudieux e o baterista André Jourdan. Merecia ter sido mais explorado, apesar de a versão registrada captar perfeitamente a essência da "malandragem" do tema composto por Edgar Battle e Eddie Durham, tornado famoso pela interpretação do mestre William James Count Basie.

Nas músicas, Mauro Albert mostra desenvoltura nos solos, usando técnicas variadas, inclusive os blocos de acordes (chord solo), que Django tanto gostava. Para dividir as melodias, ele conta com as intervenções e solos inspirados do saxofonista Júlio Erthal. Ambos são sustentados pela cozinha entrosada formada pelo contrabaixista Ricardo Penha e o baterista Eduardo Rorato.


NIGHT AND DAY




TOPSY




ATUALIZAÇÃO (23/12/10):

Mais alguns vídeos foram postados no Youtube pelo pessoal da banda POUCAS & BOAS. Seguem eles:

NUAGES


SEPTEMBER SONG



BELLEVILLE

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Jazz cigano em Londrina - POUCAS & BOAS

Além dos paulistas e fluminenses (veja no post anterior), os paranaenses também terão a oportunidade de ouvir jazz cigano de qualidade ainda em 2010.

Fechando - pelo menos, até o momento - as comemorações do Ano do Centenário do mestre Django Reinhardt, o grupo POUCAS & BOAS fará apresentações, no próximo fim de semana (sábado, 18/12, e domingo, 19/12), em Londrina (PR).

O quarteto é formado pelo guitarrista Mauro Albert, o saxofonista Júlio Erthal, o contrabaixista Ricardo Penha e o baterista Eduardo Rorato. O repertório inclui Douce Ambiance, Manoir de mes rêves e Topsy, além dos principais standards manouche.

O grupo teve início quando Mauro Albert, admirador esporádico das músicas de Django, participou de uma turnê com os músicos Guinha Ramirez e Leandro Fortes, no qual executaram quatro temas do cigano, com Mauro na viola de 10 cordas (!!). Na volta da turnê, segundo o instrumentista, a piração tomou conta e ele mergulhou no estilo. Autor de quatro albuns instrumentais, começou a recrutar os amigos músicos para a empreitada e estava formado o POUCAS & BOAS.

Os shows serão no Teatro Zaqueu de Melo, na Avenida Rio de Janeiro, 431, Centro. No sábado, o POUCAS & BOAS subirá ao palco às 21h; no domingo, às 20h. O ingresso custa R$ 5 (meia entrada). Interessados podem obter mais informações pelo telefone (43) 3301-7133.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Jazz cigano desponta no Brasil

Trata-se de algo muito auspicioso - como se dizia antigamente - que as bandas de jazz cigano (jazz manouche, ou gypsy jazz) estejam proliferando no Brasil. Aos poucos, mas num movimento aparentemente crescente, estão encontrando espaços para se apresentar.

Ainda esta semana, fui surpreendido - com um dia de atraso, infelizmente - pela apresentação do Belleville Quarteto na Lapa (RJ), na noite de quinta-feira (9/12). Ao ver a referência sobre Django Reinhardt, um amigo que conhece o blog veio logo comentar: "Teve show de uma banda que toca o som daquele cara lá que você gosta..."

É, ainda se trata de um "gueto" musical. Mas é muito melhor que o nada absoluto que existia no fim de 1998, quando comecei a pesquisar o assunto. Pouquíssimas pessoas sabiam quem era Django Reinhardt, e a disponibilidade de música era mínima. Houve alguns LPs lançados na décadas de 1970 e 1980, como a série Jazzology, da EMI, que trazia cinco discos com os principais clássicos dos principais mestres do jazz, e Swing it lightly, album duplo com registros da fase eletrificada e bebopizada de Django.

Já conhecia - e recomendo - o Hot Club do Brasil, do camarada Benoit, e o pessoal do Hot Club de Piracicaba, além, claro, do Manuchiados. No começo de novembro, os dois primeiros, junto com a Traditional Jazz Band, promoveram um evento em São Paulo para comemorar o centenário de Django.

Infelizmente, não achei MySpace nem canal do Youtube do Belleville Quarteto. O grupo, de acordo com o site da casa de shows Santo Scenarium, é composto por Sérgio Danilo (clarinete), Samy Erick (guitarra), Pablo Passini (guitarra) e Gustavo Amaral (baixo). Se alguém localizar, emails para a redação do DJANGOLOGIA.

Apesar de achar muito auspiciosa - gostei do termo - essa propagação do estilo e o surgimento de eventos específicos, tenho duas observações, que se aplicam não só aos brasileiros, mas a muitas das bandas seguindo o estilo. Espero que sejam entendidas em um contexto construtivo. Não há intenção de ofender o trabalho de ninguém.

Django era fã de inovação. Queria estar sempre na vanguarda - ainda que isso lhe tenha sido dificultado por uma série de fatores ao longo da vida. Primeiro, as privações provocadas pela origem cigana, que de certa forma acabaram levando a sua escolha pelo musette e pelo java (estilos antigos de Paris) quando estes eram quase proibidos.

Sempre fascinado pelas novidades, aderiu ao hot jazz de Louis Armstrong, que só veio a conhecer cinco ou seis anos depois de seus primeiros sucessos, por sua origem pobre, não tinha dinheiro para importar discos, como faziam os garotos bem-nascidos que fundaram o Hot Club de France em 1932. Depois, as privações e o isolamento provocado pela Segunda Guerra o impediram de participar da revolução do bop. Charlie Christian ficou com o título de gênio máximo da guitarra.

A aposta das bandas atuais no tradicionalismo é grande. A ideia de revival dos anos 30 é muito forte, tanto pela instrumentação quanto pelos temas tocados. Nisso, seguem uma tendência saudosista mundial. A fase de Django lembrada com mais carinho pelos admiradores é sem dúvida a do Quinteto. Esta não reflete, contudo, a totalidade do artista que ele foi, e, em certa medida, tornou-se até uma camisa de força do qual ele teve dificuldade para se livrar.

Mais de uma vez, Django foi quase "obrigado", por questões financeiras, a reunir formações como a do Quinteto. Outras vezes, o fez mesmo para aproveitar a fama da mítica parceria com Grappelli. Mesmo quando já tinha se convencido de que, criativamente, uma formação com outro solista (clarinetista ou saxofonista), piano, baixo e bateria, era mais do que suficiente. Os formatos adotados nos Hot Clubs são, essencialmente acústicos e de quatro, cinco ou mais integrantes.

Quando Django descobriu de fato o poder da eletrificação, em 1946, na viagem aos EUA com Duke Ellington, não voltou mais para a acústica simples. Adorava como a captação elétrica da vibração das cordas permitia maior sustentação das notas (sustain). Para ele, um dos principais propagadores do uso de bends (o ato de "torcer" a nota, mudando sua tonalidade pela manipulação da tensão da corda) e dos glissandos (o "deslizar" de uma nota para outra), era uma oportunidade ímpar de esforçar menos para produzir mais sons.

Instalou um captador Stimer no seu Selmer e passou até a experimentar com as distorções provocadas pelo primitivismo do equipamento. Não viveu, infelizmente, para ver a guitarra elétrica sólida inventada por Leslie Les Paul Polfuss. Se tivesse vivido, não tenho dúvidas de que a teria adotado. Quando descobrisse os pedais de efeitos, então...

Outra questão são os repertórios recheados de clássicos em sua maioria instrumentais, o que dificulta bastante o acesso do público. Por mais que, para os fãs, possa ser maravilhoso escutar novas execuções de Nuages, Minor Swing, Daphné, Sweet Georgia Brown e Saint Louis Blues, para citar algumas, o mundo não é mais o mesmo. O andamento utilizado pelo Quinteto - radical para a época - não é mais "moderno" para o público, hoje conhecedor de havy metal de alto poder de destruição dos tímpanos e de velocidades absurdas e muitas vezes, incômodas.

Em 1946, Django e Grapelli chocaram a França com uma versão jazzística de La Marseillaise. Jimi Hendrix, 23 anos depois, surpreendeu o mundo com uma versão rock n' roll do hino americano Star Spangled Banner. Em 1937, Django e Grapelli viram ser carbonizadas pelos nazistas cópias de sua versão jazz para o Concerto em D menor para dois violinos, de Johann Sebastian Bach. Nos anos 1980, o movimento neoclássico, capitaneado por Ritchie Blackmore, Yngwie Malsmsteen e outros, trouxe para o contexto do heavy metal as músicas clássicas - com ênfase, no caso, no barroco. Críticos torceram os narizes, mas ficou por isso.

Os tempos são outros, e permitem maiores ousadias. Por que não ousar?