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quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

O Centenário se aproxima



Em 2010, completam-se 100 anos do nascimento do guitarrista Jean Django Reinhardt, cigano nascido na Bélgica que se tornou o grande astro do jazz na Paris dos anos 1930 e 1940. No Brasil, a data não deverá passar em branco.

Em junho do próximo ano, um evento em São Paulo, paralelo ao 30º Festival Django Reinhardt de Samois-sur-Seine, na França, cidade onde viveu seus últimos anos, irá celebrar o centenário do guitarrista.

A festa está sendo organizada pelos participantes da comunidade brasileira dedicada a Django Reinhardt no Orkut, que conta com quase 1 mil inscritos. entre os quais me incluo.

Mais informações
django100anos@gmail.com

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A Revolução das 26 Cordas - 75 anos do QHCF

por Marcio Beck

A 2 de dezembro de 1934, o Quintette du Hot Club de France fez seu primeiro concerto. Como não sabiam ainda exatamente que som era aquele, os organizadores decidiram anunciá-los como um gênero novo de jazz (un genre noveau de jazz). Como de costume, ninguém acertava o nome de Django. Nas primeiras gravações, de musette, saiu 'Jiango Renard' e, mais afrancesadamente, Jeangot; desta vez, anunciavam 'Jungo' Reinhardt.

Charles Delaunay conseguiu reunir em estúdio a trupe que tocava nos bastidores do Hotel Claridge, sobre os quais o secretário do Hot Club de France, Pierre Nourry, havia comentado. Depois de algumas tentativas em vão de vender a ideia a gravadoras de maior porte, o disco sairia pelo selo Ultraphone.

O que era apenas uma brincadeira para os músicos se distraírem no intervalo entre apresentações no chá dançante do hotel parecia uma oportunidade lucrativa para Delaunay. Com o aval de Hugues Panassié, o colecionador mais fanático e crítico mais destacado do estilo no país, havia a possibilidade de um sucesso.

Delaunay havia marcado antes uma audição/gravação com um certo monsieur Dory, na Ódeon. O quinteto, até bem pouco antes era um quarteto. Incomodado por ser sustentado apenas por uma guitarra e o baixo durante seus solos - nos de Grapelli, ele mesmo participava da sustentação rítmica -, Django havia incluido o irmão, Nin-nin (Joseph), no grupo.

O repertório e os arranjos, segundo as recordações de Delaunay, foram decididos nos táxis que os levaram ao estúdio, naquela manhã de 9 de outubro. O guitarrista Roger Chaput achou no bolso do casaco pedaços de partituras de sucessos dos Estados Unidos, que provavelmente obtivera no cais do porto.

Os cinco se postaram em volta de um único microfone, e dispararam os standards Confessin' e I saw stars. Depois, ouvindo os acetatos, ficaram maravilhados com os resultados. O empresário houve por bem imprimir sua marca no grupo. Gravaram como Delaunay's Jazz.

O disco, no fim, não saiu. Os diretores da gravadora, cujos nomes a piedade mantém em segredo, bateram o martelo, negativamente: após muito deliberar, decidiram que era modernistique demais. O que mais tarde seria reconhecido como a maior qualidade do grupo, na audição dos integrantes do "comitê administrativo" da firma, era sua condenação.

Fazia sentido, para os padrões da época. A estrutura do Quintette, só com instrumentos de cordas, rompia com os cânones jazzísticos da época. Tão novo que, além de não ter sequer um título, a banda era apresentada no poster do primeiro concerto como "orquestra de um gênero novo de Jazz Hot".

A simples ideia era sacrilégio para os puristas. De fato, quando se materializou, na forma do quinteto, a reação deles não foi a veemente condenação, mas o frio desprezo. Jazz, afinal, era a música dos sopros, piano e voz, da bateria, onde a guitarra apenas ajudava a marcar o ritmo.

A primeira apresentação ao vivo, em um auditório da École Normale de Musique da Université de Sorbonne, levou a uma segunda, em 16 de fevereiro do ano seguinte. A essa altura, surgira a denominação Django Reinhardt - Stephane Grappelli et le Quintette du Hot Club de France, maneira encontrada para agradar os egos dos dois astros.

A boa resposta do público aos concertos estimulou Nourry a continuar a busca por uma gravadora. Após ser recusado pela Pathé-Marconi, chegou à Societé Ultraphone Française, ramo francês do selo alemão Ultraphone, que havia prosperado gravando músicas dos ciganos da Europa Oriental e na França decidiu investir no jazz hot.

Os primeiros discos foram remetidos aos EUA, a críticos selecionados entre os principais divulgadores do jazz (não por coincidência, todos diletantes brancos), por Pierre Nourry. Provavelmente ofendidos, intimamente, pela sugestão de que um francês pudesse ditar moda aos experts estadunidenses, fizeram pouco do som.

Também os classificaram, injustamente, de cópias do famoso duo guitarra-violino de Eddie Lang e Joe Venuti. Apesar de ter achado interessante a mistura dos instrumentos, quando foi apresentado a ela na casa de Émile Savitry, em 1931, Django considerava os dois músicos italianos radicados nos EUA e que fizeram sucesso na orquestra de Paul Whiteman como "muito limitados".

Entre os músicos, ocorreu o exato oposto. O som do Quintette du Hot Club de France foi recebido apaixonadamente e influenciou os maiores guitarristas das primeiras gerações de adeptos das guitarras eletrificadas, como Charlie Christian, Chet Atkins, Les Paul, até o blueseiro B.B. King.

Formação original: Stéphane Grappelli, Joseph Reinhardt, Django Reinhardt, Louis Vola e Roger Chaput

domingo, 1 de novembro de 2009

Um pouquinho de Brésil

por Marcio Beck

Encontrar laços entre Django Reinhardt e o Brasil não requer grandes esforços.

O primeiro e mais significativo são as gravações pioneiras em ritmo de jazz de uma música muito cara aos tupiniquins. É um animado e lânguido tema intitulado simplesmente Brazil, que nada mais é que a imortal Aquarela do Brasil, de Ary Barroso. Compositor e intérprete prolífico, com mais de 800 gravações em 25 anos de carreira, Django fez mais de uma gravação de muitos temas – a maioria próprios ou standards consagrados nos Estados Unidos.

A música, escrita em 1939 e lançada no ano seguinte, tornara-se símbolo internacional da brasilidade em 1942, ao ser incluída no filme Saludo amigos, da Disney – basicamente, uma peça de animação infanto-juvenil da campanha dos EUA para atrair a simpatia sulamericana, no contexto da Segunda Guerra, enquanto o Brasil e outros países hermanos pendiam para o Eixo. É o filme que introduz o Zé Carioca, personagem criado especialmente para cimentar as relações, ao mesmo tempo o estereótipo do brasileiro que perdura até hoje no exterior: esperto, malandro e preguiçoso.

No filme da Disney, Aquarela era cantada em português, na voz de Aloysio de Oliveira. Só em 1957, uma década depois da primeira gravação de Django, Sidney Keith ‘Bob’ Russell verteu a letra para o inglês. Caberia a Francis Albert Sinatra registrar primeiro a versão, no disco Come fly with me. Porta aberta por The Voice Sinatra, todo crooner e líder de big band que se preza fez a sua: Bing Crosby (1958), Ray Conniff (1960) e Paul Anka (1963), só para citar alguns. Um dos principais “herdeiros” de Django, Chet Atkins, fez sua versão instrumental em 1976.

Brazil aparece pela primeira vez nos registros gravados de Django em 18 de julho de 1947, numa sessão para o selo parisiense Blue Star. Acompanhado do parceiro pós-Grappelli, Hubert Rostaing, na clarineta, o irmão, Joseph, na guitarra, o fiel escudeiro Emmanuel Soudieux no baixo e André Jourdan, outro do noveau quintette, na bateria, gravou o hino oficioso do país, junto com September song, I'll never smile again, New York city, Django's blues, Love's mood e I love you.

De volta à França após meses nos EUA, seguidos à turnê com Duke Ellington, Django adotara a guitarra eletrificada. Com a sustentação das notas garantida sem maiores esforços, os solos de Brazil são aulas de leveza, comparada à técnica bruta que o consagrara nas casas de dança da Rue Pigalle. Na terra do jazz, virou-se com uma eletroacústica Zephyr, que segundo o guia e tradutor de Django na viagem, o guitarrista ítaloamericano Joe Sinacore, foi doada pela Epiphone Company, em uma visita deles à fábrica na Rua 14 Oeste de Nova York. Em Paris, voltou à sua amada Selmer-Macaferri, agora com um captador elétrico instalado na abertura do tampo.

Django repetiu a dose nos estúdios da Radio Audizione Italiana (RAI), em Roma, no início de 1949, ao lado do eterno parceiro Stephane Grappelli. Foi acompanhado apenas pelo pianista Gianni Safred, o baixista Marco Pecori e o baterista Aurelio de Carolis em sessões que se estenderam por janeiro e fevereiro e renderam 67 temas, incluindo clássicos como Night and Day, Stormy weather e What a difference a day made.

A terceira e última veio na penúltima sessão de gravação do guitarrista, em 10 de março de 1953, dois meses antes de sua morte. Já adepto do minimalismo nas seções rítmicas, usava a mesma base de piano, baixo e bateria, mas com os franceses Maurice Vander, Pierre Michelot e Jean Louis Viale, respectivamente, substituindo Safred, Pecori e De Carolis.

A segunda ligação diz respeito a Grappelli. Conta seu biógrafo, Steve Balmer, que nos anos 1920, antes de sequer conhecer Django ou pertencer à lendária formação do Quintette du Hot Club de France, o pianista e violinista engajou-se na trupe comandada pelo inusitado showman armênio Krikor Kelekian, que se apresentava como Grégor. Faziam um espetáculo cômico classificado pelo líder como opera jazz. Na prática, muito pouco do que se entendia por jazz nos EUA na mesma época. Em outubro de 1930, Gregor e seus Gregorianos embarcaram no vapor Alcantara para uma travessia de 17 dias até a América do Sul, então uma terra distante e misteriosa para a imensa maioria dos europeus não ibéricos. Passaram por Buenos Aires, na Argentina, e chegaram ao Brasil:

Ao chegar primeiro na capital brasileira do Rio de Janeiro, Stéphane testemunhou o trabalho de engenharia na imponente estátua do Cristo, de Paul Lewandowski que estava começando a se erguer sobre o porto. Mais importante, Stéphane se tornou um dos primeiros europeus a ouvir o autêntico samba. Que experiência para um garoto do vilarejo de Montmartre, ouvir esta exótica mistura do ritmo africano, fado português e da exótica alma amazônica.

À parte o entusiasmo levemente equivocado e fixado no “exotismo”, Balmer não superestimou o impacto da experiência em Grappelli, que caiu de amores pelos ritmos brasileiros. O violinista gravou o disco La grande reunion, em 1975, com um dos maiores guitarristas de todos os tempos, o brasileiro Baden Powell de Aquino. Acompanhados por Guy Pedersen (baixo), Clément de Waleyne e Jorge Rezende (percussão) e Pierre-Alain Dahan (bateria), Grappelli e Baden gravaram para a francesa Disques Festival Eu vim da Bahia, Meditação, Berimbau, Desafinado, Samba de uma nota, Isaura, Amor em paz e Brazil.

La grande reunion, 1975, Festival Disques

Em 1988, Grappelli veio pela segunda vez ao Brasil, para se apresentar no Free Jazz Festival. Rendeu uma bela entrevista a Fritz Utzeri, apropriadamente intitulada “O gigante do violino”, publicada na edição de 1º de setembro daquele ano. Grappelli afirmou que chegou a tocar piano no antigo Cinema Odeon, que à época exibia filmes mudos – afirmação difícil de confirmar, mas aceita pelo mestre jornalista no mínimo como licença poética.

Desde o final da década de 60, Grapelli tomou contato com a bossa nova e até em seu último LP, All of me, há várias faixas com uma marcação rítmica inconfundivelmente brasileira. “Eu gosto muito da música brasileira. Quando ouvi pela primeira vez a a bossa nova fiquei encantado. Não tive oportunidade de fazer muita coisa nesse terreno, salvo um disco com Baden Powell, e nem sei o que foi feito desse disco”, diz.

Grapelli conta sua turnê pelo Brasil nos anos 30 com a Orquestra Gregor. “Nós saímos de Cherburgo de navio e levamos 17 [ara chegar à nossa primeira escala: Pernambuco. Eu conheço Pernambuco devido a uma razão particular: é de lá que sai a madeira para fazer os bons arcos de violino. Soube disso por um mestre na fabricação de arcos, uma autoridade mundial que recentemente disse-me que a fabricação torna-se problemática porque a madeira está ficando rara devido à devastação. Por que vocês fazem isso?”

No Rio, foi contratado para tocar no Odeon. “Eu me lembro onde estava e reconheceria a praia ainda hoje”, diz, sem saber que o mar está longe. “Ficamos num hotel ao lado (ele não lembra o nome, mas era provavelmente o Serrador) e eu estava espantado porque era a primeira vez que eu via um prédio de 14 andares, não havia isso em Paris”. Grapelli tocou em fazendas no interior e em Santos e São Paulo, “que era uma cidade pequena naquele tempo. Os concertos enchiam, tudo o que vinha de Paris era novidade e bem recebido”. Eles já tocavam jazz. “Imagine que outro dia vi no cinema Cantando na chuva, mas a gente já tocava isso naquela época. Nós tocávamos música americana, Tea for two, essas coisas”.

Por fim, há o amigo e rival Oscar Alemán, meio índio argentino criado nas ruas do porto de Santos, onde aprendeu tocar cavaquinho ainda criança, ganhando trocados para sobreviver. Órfão de pai aos 11 anos, abandonado pelos irmãos não muito mais velhos e sem condições de viajar de volta para a família na planície do Chaco, Alemán foi adotado por um guitarrista brasileiro chamado Gastón Bueno Lobo. Com a dupla intitulada Los Lobos, viajaram pela Europa como “guitarristas havaianos”.



Lá, Alemán acabou se estabelecendo, enquanto o parceiro voltou ao Brasil. Alemán carregou consigo o repertório de sambas e outros ritmos ditos exóticos, cujos elementos foi provavelmente o primeiro a infundir no jazz. Falava português com pouco sotaque, pelo que se pode perceber em suas gravações. Chegou a gravar, nas décadas de 1940 e 1950, temas como Negra do cabelo duro (cantando) e uma versão (ainda mais) acelerada de Tico tico no fubá.

Por mais que Alemán possa ter aprofundado o contato de Django com a idéia de que havia sons estranhos naquela região “exótica e misteriosa”, é tentador demais creditar à amizade/rivalidade dos dois as gravações de Aquarela do Brasil por Django. Alemán havia retornado à Argentina, por causa da perseguição nazista, em 1939, e Ari Barroso só registrou sua famosa canção dois anos depois. Os biógrafos estrangeiros de Django – principalmente canadenses e franceses – são omissos a respeito, o que não é de se estranhar. Três gravações são uma mísera porção de sua prolífica obra completa.

Em tempo: suspeito de Grappelli.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

A grande obra do artesão do som



por Marcio Beck


A exótica guitarra desenhada pelo renomado luthier espanhol Julian Gomez Ramirez para seu amigo Baro não era suficiente para o impetuoso guitarrista de 23 anos, saído de uma convalescença de quase dois anos. Havia utilizado-a, tocando musette com a banda de Vetése Guerino na Boîte à Matelots, em Paris.

Seu desenho peculiar, com as duas aberturas no topo do corpo ajudava, mas como todas as outras antes dela, não produzia o som no volume que gostaria de alcançar. Queria competir com sopros, pianos... queria - aliás, precisava - fazer sua "voz" instrumental ser ouvida.

Apenas alguns quilômetros o separavam do italiano Mario Macaferri, que, num atelier na pequena Mantes-la-Ville, concretizava a mesma busca pessoal por mais volume nas guitarras. Macaferri, dez anos mais velho, aperfeiçoava sua invenção: uma guitarra desenhada para conter uma barra metálica que ressoaria com a vibração das cordas e do tampo.

Exímio guitarrista, fora aprendiz, desde os 11 anos, do luthier e maestro Luigi Mozzani, com quem permaneceu até 1926, quando concluiu o curso do Conservatório de Siena. Após trocar a luthieria por uma prolífica carreira de concertista, mudou-se para Londres, na Inglaterra, em 1929. Passou a dar aulas de guitarra, até que seus desenhos inovadores chamaram a atenção de revendedores dos instrumentos de sopro do francês Henri Selmer.

Verificadas em Siena e com Mozzani as sólidas credencias de Macaferri como luthier e músico, Selmer aceitou produzir uma linha de instrumentos de cordas com os planos apresentados pelo italiano. O atelier foi instalado na pequena cidade francesa para servir de base de operações.


O "aprimoramento para violinos, guitarras, bandolins e outros instrumentos de cordas" foi registrado em 6 de maio de 1932 na patente #736.779, segundo o luthier e pesquisador Paul Hostetter. O equipamento, batizado "ressonador interno", acabou não vingando, por motivos não muito claros. Hostetter argumenta que podem ter sido retirados porque falhas na instalação faziam com quem se soltassem e provocassem zumbidos indesejáveis.

Do outro lado do mundo, nos Estados Unidos da América, outras ideias, mais avançadas que as do italiano eram colocadas em prática para tentar chegar a uma guitarra de volume elevado sem perder o tom agradável. Quem mais se aproximava dos conceitos do italiano era o imigrante iugoslavo John Dopyera, herdeiro de uma longa tradição familiar de lutheria de violinos, que empregava cones de alumínio no interior do corpo de suas guitarras.

Em 1933, Macaferri deixou a companhia de Selmer, com a linha de guitarras plenamente operacional. Voltou a atuar como concertista pela Europa, enquanto os artesãos convocados pelo francês retocavam outros pontos do projeto.




Uma das inovações que os projetistas de Selmer julgaram melhor manter foi a escavação na parte inferior dianteira do tampo do instrumento, que permitia acesso fácil às casas mais agudas. A escavação, que seria depois incorporada aos modelos mais modernos em todo o mundo, começava na 12 casa e ia até a 15 casa. A escala terminava, já flutuando sobre a abertura do som, na 24 casa.

O formato da abertura era outra novidade interessante, mas que não sobreviveu. Em vez do círculo preconizado por Tarrega, Macaferri desenhou-a em forma de 'D', que ficou conhecida como grand bouche (grande boca). A equipe de Selmer transformou a abertura em oval, petite bouche (pequena boca), e eliminou a escala flutuante.




Django, seu irmão Joseph Nin-nin Reinhardt e os primos Pierre Baro Ferret e Eugene Ninine Vées usaram o modelo de Macaferri nas primeiras aparições do Quintette, em 1935. Depois, Django gravitou para o "modéle Jazz" petite bouche finalizado por Selmer, enquanto os responsáveis pelas guitarras rítmicas se mantiveram com as grand bouche.



A Selmer #503 chegou ao Musée Instrumental de Nice, onde permanece sob o número de inventário E.964.5.1, por doação, em 5 de novembro de 1964 - segundo especialistas, pela viúva de Django, Naguine. Fabricada em 1940, acompanhou o cigano por 13 anos. Foi, provavelmente, a que mais ficou em seu poder.

O criador do instrumento morreu em maio de 1992, 40 anos depois do artista responsável por sua popularização, mas nunca o ouviu tocar.

O relâmpago de três dedos

Django nos EUA, em 1946. Crédito: William Gottlieb/DownBeat

por Marcio Beck

São raros os vídeos que mostram Django Reinhardt no exercício da atividade principal de seus 43 anos de vida - ou seja, tocando guitarra. Destes, apenas um possui som sincronizado. Fotos não faltam, ainda que as de sua infância e juventude sejam escassas. Após se tornar ídolo do poeta Jean Cocteau, o guitarrista cigano brilhou na Paris dos anos 1930 e 1940; sua imagem ganhou o mundo. Apesar de depoimentos que o descrevem como ligeiramente distante, está quase sempre sorridente ou concentrado, tocando.

William Gottlieb e sua câmera, em julho de 1997. Crédito: John Higgis, Library of Congress Bulletin As mais famosas foram feitas pelo colunista da DownBeat William Gottlieb, durante a turnê nos EUA com Duke Ellington, em 1946. As imagens marcaram Gottlieb, cujo tesouro em forma de mil registros dos principais artistas de jazz do país entre 1938 e 1948, entregue à Biblioteca do Congresso dos EUA, somam 1,6 mil negativos e transparências coloridas, 54 quadros de exibição emoldurados, 950 impressões de referências e os contatos correspondentes.

A mão esquerda desfigurada, claro, foi o que mais atraiu a atenção do fotógrafo. Naquelas em que o guitarrista aparece empunhando o instrumento, é possível ver em detalhes como a pele das costas da mão era repuxada para o centro, causando o deslocamento para trás dos dedos anular e mínimo e impedindo grande parte da movimentação. Os vídeos, por sua vez, revelam que ele fazia uso adaptado destes. Funcionavam como um terceiro dedo"; movia-os conjuntamente, prendendo as cordas inferiores, mais agudas, na mesma altura do braço da guitarra.

Quando fotografou o guitarrista cigano francês (sic) Jean-Baptiste "Django" Reinhardt, a quem não conhecia bem, o sr. Gottlieb fixou na mão de Reinhardt desfigurada por um acidente. "Ele não sabia o que estava fazendo", disse o sr. Gottlieb, "mas eu sabia o que eu estava fazendo. Não era tão sutil quanto tentar capturar a emoção de Billie Holliday" ele disse, acrescentando que suas fotografias vão da apelação - a mão de Reinhardt - à expressão sutil - Holliday cantando**.

Croqui: Roger Baxter

Depois que o Quintette du Hot Club de France (QHCF) se tornou sucesso na Europa - conquistando público apaixonado não só França e Inglaterra, mas nos países Baixos e na Escandinávia - as lentes passaram a persegui-lo.

Não era bonito, para os padrões da época; creio que nem para os atuais. O rosto era ovalado, e os olhos tinham um certo ar de peixe morto. Completava a figura o bigodinho fino típico da época, também adotado por seus entusiastas até os dias de hoje. Mesmo assim, fotos suas chegaram a ser produzidas em série e vendidas aos fãs, como as dos artistas americanos e os maiores artistas franceses: "o astro dos discos 'swing'", afirmava a legenda.

A semelhança dos adeptos do gypsy jazz com o santo patrono do estilo chega a tais pontos que, em meados de 2000, um ano e meio após ter iniciado minha pesquisa, fui apresentado ao documentário Latcho drom, sobre música cigana, e passei um bom tempo supondo que Tchavolo Schmitt era Django. Ele aparece na cena filmada na França, na procissão anual realizada em homenagem a Santa Sara, alvo de devoção dos ciganos de todo o mundo.



Ao contrário do que se possa pensar, não escondia a mão esquerda defeituosa nas fotos. Nem podia, já que na grande maioria aparece tocando. Mesmo nas que está posando, no entanto, como nas que fez com Duke Ellington, ou em uma que aparece "lendo" a revista DownBeat, parecia não sentir necessidade de tal coisa. Apesar de terrivelmente desfigurada, sua mão esquerda era, antes de mais nada, a própria fonte da lenda.

Crédito: n/d

Numa das primeiras fotos que publicou do cigano, a DownBeat mostrou-o ao lado da esposa, Naguine (Sophie Irma Ziegler) e do então empresário, Charles Delaunay. Na legenda, além do elogioso epíteto de "colossal", o texto traz o "aviso" sobre a deformidade física que o tornara lendário: "Repare os dedos mínimos da mão esquerda - eles permanecem desse jeito o tempo todo").






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* Gottlieb and the Golden Age of Jazz - Photographer Lives on Through Library Collection, Erin Allen, Library of Congress Information Bulletin (Junho de 2006)

** Library Acquires Photos by William P. Gottlieb, Will Dalrymple. Library of Congress Information Bulletin (2/10/1995). Tradução Marcio Beck.

sábado, 15 de agosto de 2009

Lester William 'Les Paul' Polsfuss (9/6/1915 - 13/8/2009)

Les Paul no camarim do Iridium Jazz Club (4/out/2004). Crédito: Richard Drew/Associated Press)

Menos um gênio na face da Terra. Restam poucos, infelizmente.

Aos 94 anos, o pai da guitarra elétrica de corpo sólido e da gravação multicanais –invenções que revolucionaram a música moderna – e avô do rock n’ roll foi convocado a tocar na Grande Jam Celestial.

O convite, o único que em vida não se pode recusar, chegou até ele num local apropriadamente batizado de Planícies Brancas, no estado de Nova York (EUA). Estava acompanhado por parentes e amigos.

Mark Kemp, da Rolling Stone, perguntou, após uma de suas últimas apresentações, se continuaria fazendo shows até chegar aos 100 anos. “Enquanto as pessoas me aturarem e eu estiver me divertindo, por que não?”

Infelizmente, o Divino Diretor Musical achou que já era hora de Paul compartilhar sua experiência com os talentos mais jovens que chegaram ao Palco Sagrado nas últimas décadas, além de rever amigos antigos. O blog Speakeasy, do Wall Street Journal, registrou a passagem do músico com o seguinte comentário:

Les Paul, o grande guitarrista que morreu hoje, aos 94, foi entrevistado dois anos atrás por John Jurgensen, do Wall Street Journal. "Gosto de tocar em um lugarzinho onde ninguém me incomoda", disse. Ele então contou sobre tocar apesar da artite (ele "aposentou-se" em 1965), e seus amigos Django Reinhardt e B.B. King.

Foi inspirando-se em Django que, na década de 1930, migrou do country (com o qual retomou contanto, mais tarde) para o jazz, com o Les Paul Trio.

Vale a pena ler o artigo da Gibson Guitars informando da morte do artista.

domingo, 9 de agosto de 2009

A guitarra encantada de Django

JORNAL O GLOBO
Segunda-feira, 18 de abril de 1988

DISCOS/Crítica
SWING IT LIGHTLY

A guitarra encantada de Django
JOSÉ DOMINGOS RAFFAELLI

O célebre Django Reinhardt (1910-19583) foi um dos guitarristas originais da história do jazz, criando um estilo inteiramente pessoal que influencia até mesmo músicos americanos. O álbum duplo "Django - Swing it lightly" documenta o início e o final da carreira do legendário guitarrista cigano.

Embora não haja qualquer informação a respeito, seja dos músicos participantes ou das datas de gravação, adiantamos que o primeiro disco apresenta registros do famoso Quinteto do Hot Club da França, integrado por Django, seu fiel companheiro Stephane Grapelli (violino), além de Joseph Reinhardt e Roegr Chaput (guitarras) e Louis Vola (baixo). Essa formação de instrumentação revolucionária marcou sua passagem pelo jazz como uma das mais produtivas associações de todos os tempos. A histórica primeira sessão do QHCF, realizada em dezembro de 1934, é representada por "Dinah", "Tiger rag", "Lady be good" e "I saw stars"; em março de 1935 foi a vez de "Confessin'", "The Continental", e "Sweet Sue", e no mês seguinte, perpetuaram "Blue drag", "Swanee river" e "The sunshine of your smile".

O segundo disco, gravado em 10 de março de 1953, dois meses antes da morte do guitarrista, foi editado no Brasil há quase duas décadas. Com Django, atuam Maurice Vander (piano), Pierre Michelot (contrabaixo) e Jean-Louis Viale (bateria), músicos de concepção mais moderna. No repe´tório, duas obra-primas do guitarrista: "Nuages", sua composição mais conhecida, e "Manoir de mes rêves". Também ouvimos standards do quilate de "Night and day", "Confession'" e "September song", a canção francesa "Insensiblement", a brasileira "Aquarela do Brasil", além dos originais "Blues for Ike", "Gipsy with a song" e "Testament", do próprio Django.

Se, no primeiro disco, Django e Grapelli dava, mostras de um entendimento magnífico, no segundo ouvimos o músico maduro que domina inteiramente a sua arte, criando momentos de pura magia.


* Django - Swing it lightly (CBS), com o guitarrista Django Reinhardt. Qualidade da gravação: regular no disco 1 e boa no disco 2. Qualidade da prensagem: boa.